uma viagem de uma EQUIPE ITINERANTE
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Relato de uma viagem de uma EQUIPE ITINERANTE (enviado por Paco Almenar)

Eram cinco da manhã e íamos partir quando caiu uma chuva torrencial e tivemos que esperar que ela parasse. Acabamos por partir e começamos a nossa subida do rio Tauhamanu; navegamos até às 17h30. Paramos e o condutor do barco disse : “Aqui é que vamos dormir”. Sentimos um frio na barriga. Íamos dormir na praia?

Tínhamos que nos organizar depressa, antes que caísse a noite. Tínhamos uma tenda de campanha, mas não sabíamos bem como montá-la. Todos ajudaram. As senhoras prenderam um grande mosquiteiro na areia. Paco e Joaninha armaram as redes com canas grossas. Paco tentou deitar-se e veio tudo abaixo. Teve que ir buscar outra árvore. O nosso condutor pescou uns cascudinhos para o jantar. Uma panela de arroz um bocado queimado pela fogueira foi o nosso manjar celestial. Recolhemo-nos ao nosso hotel cinco estrelas e… começou a chover.

No dia seguinte íamos partir às cinco e meia porque ainda tínhamos que subir o rio durante seis horas. E quando começamos a levar as coisas para a canoa ficamos assombrados com as pegadas de uma onça que eram enormes e que tinha passado rente a nós. Seguimos viagem depois de termos partilhado as sobras do arroz da véspera.

Eram onze da manhã quando vimos a aldeia de Nova Oceania. Que alegria ! O vice-presidente, Basílio, veio acolher-nos e ajudar-nos a carregar com as nossas coisas. E esquecemos o cansaço da viagem com o acolhimento e a alegria das famílias que nos esperavam. Subimos uma pequena colina e levamos as coisas para a “casa comunitária” (que não tinha paredes) onde amarramos as nossas redes. Visitamos a escola e já todos nos estavam a contar a vida e a história da aldeia.

E começaram por contar algo que nos partiu o coração: “Em 2014, um madeireiro mandou queimar todas as casas no dia em que fomos a Iberia para uma festa. Quando regressamos, não sobrava nem uma casa.” Infelizmente esta aldeia está cercada por concessões madeireiras, uma das quais trabalha com chineses. As casas foram queimadas para ver se os índios desocupavam a zona. Mas eles construíram outras casas e recomeçaram a cultivar as suas parcelas. E cada vez se sentem mais fortes.

Convidaram-nos para comer paca com arroz, um almoço de primeira! E depois disseram-nos que descansássemos enquanto eles iam pescar. Ao fim do dia reuniu-se a comunidade toda.

Apresentamo-nos e eles contaram a história da comunidade. Tinham saído de Oceania, onde viviam antes, expulsos por agricultores ricos. Agora, nesta aldeia, são reconhecidos como camponeses e têm lutado para serem reconhecidos como comunidade nativa. Já têm uma escola primária e querem ampliá-la. O professor irá terminar a sua formação para o ano que vem, mas voltará no fim dos seus estudos. Querem construir uma igreja porque são católicos e já ergueram uma cruz no lugar onde está o terreno que lhe foi destinado… A nossa vinda foi para eles um sinal de que vale a pena continuar.

Também nos comprometemos a ajudá-los no processo de protecção das áreas onde vivem “irmãos não contactados” (que não tiveram nunca contactos com a ‘civilização’). Embora os habitantes da aldeia já tenham sido atingidos por flechas e tenham um certo medo dos homens deste grupo de “não contactados”, chamam-lhes irmãos e tentam lutar contra os madeireiros que lhes querem tirar as terras e fazê-los desaparecer.

No dia seguinte falamos-lhes sobre as pessoas que são atraídas por traficantes para serem escravizadas; eles já tinham ouvido falar sobre isso e agradeceram-nos por os termos alertado.

Depois disseram-nos quais eram as coisas que mais lhes faziam falta. O mais importante é serem reconhecidos como ocupantes legais e titulares da terra onde vivem. Também precisam dum posto de saúde e de um barco para transportar o peixe…

Pusemo-nos de acordo para preparar um documento para enviar ao Ministério Público pedindo o reconhecimento oficial da aldeia como propriedade de seus ocupantes, para os proteger dos madeireiros.

Podemos testemunhar sobre a coragem desta comunidade que procura superar as dificuldades que tem. É uma comunidade que está de pé apesar das marcas da destruição ainda serem visíveis.

Disseram-nos que há umas sete comunidades nativas numa região que deveríamos visitar e que poderíamos fazê-lo com a ajuda dum senhor do Alto Purús.

Mais itinerâncias em perspectiva…

Alto Rio Tauhamanu, Comunidade Nativa Nova Oceania, 2017, Brasil

Joaninha, Liam, Paco, Jorge e Fredy

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