Apadrinhe o projecto educativo de uma criança ou de um adolescente
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A Qualificar para Incluir (QpI) acompanha 450 agregados familiares no âmbito da aplicação da medida de política social Rendimento Social de Inserção (RSI). De acordo com os princípios que assume como norteadores da sua acção, a QpI procura reunir as condições necessárias para que os filhos dos beneficiários da referida medida conquistem os “trunfos” necessários para não herdarem a pobreza dos seus pais. Originárias de famílias que não possuem escolarização, que não sabem como educar os seus filhos de acordo com as exigências da sociedade actual, que não possuem os conhecimentos necessários para as ajudar nos trabalhos escolares, nem uma cultura favorável à valorização do estudo e do conhecimento, estas crianças e adolescentes só podem aceder ao bem que é a escolarização se lhes forem criadas condições especiais. Infelizmente, na nossa perspectiva, as escolas a que têm acesso não lhes oferecem as condições adequadas para que lhes seja possível apropriarem-se de verdadeiras aprendizagens. Uma parte muito significativa das crianças e adolescentes das 450 famílias a que aludimos acima frequenta escolas que, porventura, não será exagero considerar autênticos guetos sociais. Afirmamos isto, alicerçados na evidência de que nessas escolas se concentram exclusivamente crianças originárias de famílias culturalmente desmunidas, bem como na evidência de que elas são locais de concentração de diversas formas de comportamento desviante. Os meninos e meninas que a QpI procura subtrair ao risco da desinserção social frequentam escolas onde as crianças são levadas a acreditar que a certificação é um jogo que nada ou pouco tem a ver com aquisição de saberes consistentes. Escolas onde estas crianças são conduzidas à preguiça mental, o que se evidencia no facto, por exemplo, de chegarem ao 3º ciclo do ensino básico não sabendo determinar quanto é ½ sem recorrer a uma máquina de calcular, de não conseguirem somar mentalmente 5 com 3 ou determinar a metade de 14, de não saberem calcular 20% de 70 euros, sendo que, não raro, nem sequer chegam a saber identificar, nem executar, as operações aritméticas fundamentais. Mais grave ainda, se tivermos em conta que a carreira escolar socialmente inclusiva implica a aquisição de conhecimentos complexos, é constatar que estas crianças, tão pouco, conseguem aplicar essas operações aritméticas à resolução de problemas da vida real. E se falarmos das competências da língua materna, a situação é tão, ou mais, grave, já que são enormes as dificuldades em expressar pensamentos em frases logicamente organizadas, para já não falar da incapacidade de ler as legendas de um filme. Estamos a falar de escolas onde os alunos são induzidos a instalar uma baixíssima capacidade de suportar o esforço, a instalar a incapacidade de compreender e descobrir que o mérito pressupõe esforço. Em suma, as crianças e adolescentes que acompanhamos na QpI têm já uma história escolar que as fez construir uma imagem ilusória da realidade social em geral e do trabalho em particular.
A experiência que a QpI acumulou em matéria de (re)conciliação destas crianças com a escola permite-nos concluir que as suas dificuldades de adaptação não são determinadas pelos défices de inteligência, mas sim, por não lhes terem sido proporcionados os caminhos apropriados. Não foram suficientemente estimuladas pela família, nem frequentaram equipamentos pré-escolares que lhes permitissem compensar aprendizagens que não podiam fazer em casa.
A nossa experiência demonstra que estas crianças, que foram tão severamente privadas de estimulação cognitiva precoce, já que as suas famílias não têm a preparação necessária para satisfazer essa necessidade, são capazes de aprender e de evoluir muito positivamente quando se investe na recuperação sistemática de tudo o que não aprenderam. As crianças começam a descobrir que são capazes e, dessa maneira, é criada a motivação para se entregarem ao trabalho escolar com interesse. Quando apoiadas por adultos capazes de investir em modos de ensinar que elegem a compreensão como factor determinante da aprendizagem, estas crianças dão muitos sinais de verdadeiro gosto e empenho. Colocá-las na posição de ouvintes sem cuidar de vigiar como se apropriam, se é que se apropriam, do que lhes transmitem os professores é o caminho mais seguro para destruir toda e qualquer possibilidade de acreditarem que podem aprender. Aprender é essencialmente um fenómeno interactivo que não só implica uma escuta atenta e persistente do modo como a criança se apercebe do que lhe é transmitido, mas também a constante reformulação das formas de transmitir até garantir a sua efectiva compreensão pela criança. Aprender implica pois dispor de adultos que não desistem de investir quando surgem dificuldades e criam as condições para que as crianças tenham êxito na realização de tarefas e progressivamente superem o medo de fracassar.
Ora, um dos maiores constrangimentos que a QpI procura superar é justamente o da carência de uma oferta de equipamentos educativos adequados às circunstâncias destas crianças. Com efeito, elas precisam de condições muito exigentes em termos relacionais, emocionais e pedagógicos. Precisam de adultos que compreendam as razões profundas das dificuldades de aprendizagem, das suas condutas desajustadas, muitas vezes uma mera reacção à frustração desencadeada pelo sentimento de incapacidade de aprender e pela indiferença e incompreensão dos adultos.
Para o ano lectivo de 2013-2014, a Qualificar para Incluir (QpI) formalizou acordos de cooperação com várias instituições de ensino públicas e privadas com vista a implementar projectos educativos consistentes e reparadores das lacunas de formação acumuladas pelas crianças no seu curto trajecto de vida. Estes projectos educativos incluem 130 crianças e adolescentes e exigem um grande investimento na criação dos laços de proximidade e da variedade de estímulos indispensáveis para aprender a pensar, a ter valores, a saber trabalhar e viver dignamente com os outros. Implicam, pois, um conjunto de despesas, nomeadamente, com transportes, alimentação, livros e material escolar, uniformes, actividades de apoio ao estudo, actividades educativas e de enriquecimento cultural nos tempos de lazer, além dos indispensáveis recursos humanos. A cooperação das instituições de ensino que decidiram acolher os referidos projectos educativos e os recursos humanos da Associação Qualificar para Incluir não são suficientes para a sua concretização. Na realidade, o Estado está longe de garantir as condições adequadas às necessidades destas crianças e adolescentes que pretendemos livrar da miséria e de outros riscos, tais como a delinquência e a autodestruição. Sem a ajuda dos cidadãos sensíveis à injustiça que é nascer numa família que não tem condições para educar de acordo com o que é exigível na sociedade em que actualmente vivemos, estas crianças não poderão crescer harmoniosamente e desenvolver o potencial com que nasceram. Apadrinhar uma criança ou adolescente através de um donativo mensal ou anual é fundamental para que este projecto seja realidade e para diminuir o risco de estas crianças se transformarem em adultos desadaptados e incapazes de satisfazerem autonomamente as suas necessidades.

QPI - Qualificar para Incluir